Minha avó, meu anjo, meu amor para a vida toda...

Angustiei-me por uma vida ao imaginar que um dia não te teria.
Chorei-te nas tuas gargalhadas mais profundas antecipando o silêncio em que me deixarias. Contar-te o que me ia na alma?Desnecessário. Sabias-me de cor. Sei-te de cor. Fecho os olhos. Regrido. Devolvo-me à cama que durante o dia apelidavas de sofá. Aconchego o meu rabo ao teu. Encosto a cabeça ao ombro que me convida. Desfruto por instantes da fragrância da laca e do creme Facial tão teus, que em uníssono me percorrem as narinas ...
Instintivamente a tua mão carregada não só de verniz vermelho mas de intenção, dá abrigo à minha perna.Volto a ser a menina. O choro invade-me...Tenho-te por inteiro. "Não chores... estragas os olhos.Tudo se resolve Sílvinha." Interiorizo,respiro,reconforto-me. Obrigo-me a voltar. Recordo as vezes que me recusei a fazê-lo absorvida pelo desgosto.
Em consciência o último ano foi-nos dando sinais. Sabíamos que o teu corpo cansado há muito recusava formar equipa contigo. Astuta e Habilidosa fazia-lo refrear. Colidi com a razão uma e outra vez. Deixei-me ludibriar. Pus freio a um coração que repetidamente queria saltar de mim. Vi-te sendo cada vez menos capaz. Um carrilhão penetrou-me a mente. Podia sentir o badalo a um ritmo frenético bater na minha consciência.
O telefone tocou! "A avó não está bem!"
Do caminho não tenho memória...O teu gemido dilacerou-me a alma mal coloquei os pés à entrada da porta. O meu mundo converteu-se num frágil castelo de cartas que se desmoronava à medida que avançava para ti. O badalo descontrolou-se, ensurdeceu-me.
Ding dong...
Olhei-te por fim. Desesperei. Abanavas o corpo para distrair a dor que te engolia sem compaixão. Egoísta incentivei-te a lutar. Como te pude fazer tal pedido? Fazia-lo há tempo demais. De soslaio, sem vacilar sussurraste-me: "é o fim".
A ambulância chegou...

